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7 de janeiro de 2017 às 14h48

Obituário

A crônica de Francisco Santana

Francisco Santana
Obituário

Nas cidades de baixa população os habitantes tomam conhecimento rapidamente das pessoas que morreram. Lá, funciona em ritmo acelerado a propaganda boca a boca. Eu sou do tempo que as agências funerárias redigiam as cartas comunicando dados sobre o velório e funeral. Havia também um entregador que ia de casa em casa levando-as. As emissoras de rádio e os jornais anunciavam tudo sobre o funeral e em alguns lugares havia um painel comunicativo. A morte fascina, emociona e atrai.  

 

No facebook há um grupo dedicado exclusivamente aos alunos, ex alunos e professores e funcionários que estudaram e trabalharam no glorioso Colégio Estadual Professor Soares Ferreira em Barbacena. As incansáveis administradoras Maria Luiza Duque-Estrada e Sheila Doumith transformaram esse grupo numa família. Quando o visito sinto um misto de alegria e tristeza. Alegria por rever amigos postando mensagens de amor, alegria, felicidades, otimismo, carinho e positivismo. Triste é ver o crescimento assustador do aumento dos integrantes do obituário. Integrantes que fizeram parte da nossa vida, que compartilharam conosco momentos alegres, hilários e prazerosos. A gente ri, chora e um sentimento aflora: emoção.  O nosso tempo de vida um dia acaba, isso é inevitável.

 

Etimologicamente a palavra "óbito" deriva do verbo latino obire que, desmembrado, significa ir (ire) na frente (ob). Quem morre vai na nossa frente, e não parece querer voltar. Obire diem, em latim, significa chegar no dia combinado, na hora certa. Por isso falamos, que cada um tem sua hora de partir...”.  

 

Por mais paradoxal que possa parecer, o assunto que mais me fez rir no tempo em que trabalhei numa emissora de rádio em Barbacena, foi o obituário. As notas de falecimento vinham prontas das agências funerárias. Às vezes membros das famílias enlutadas compareciam à emissora para deixar os dados para leitura. Erros gramaticais e omissões de dados eram comuns. A vontade de divulgar era tão grande que tais erros passavam despercebidos pelo comunicador e nem sempre pelo ouvinte. Eu me lembro de vários. Como aqueles...

Nota de falecimento.

O comunicador chegou atrasado ao estúdio. Sem tempo para se organizar a papelada que estava sobre a mesa, pegou uma nota de falecimento. Imediatamente olhou para o técnico do som, fez um gesto característico de mão-posta e disse com a voz empostada: Nota de Falecimento.

A família de Vanilda Teixeira comunica o seu falecimento ocorrido ontem, dia 12 e convida parentes, amigos e pessoas caridosas para acompanharem seus restos mortais até o Cemitério da Saudade, amanhã dia, 13, às 9h30 saindo o féretro de sua residência na Rua das Acácias, 33, bairro Justo e Perfeito, às ....................... (silêncio total no estúdio). Ele olhara para o relógio que marcava 1010h. O enterro fora realizado às 9h30. Numa saída genial ele disse: “Senhoras e senhores ouvintes, o féretro saiu da Rua das Acácias, 33, bairro Justo e Perfeito às 9h30 e o relógio assinala 1010h. Como todo cortejo fúnebre atrasa, se você andar depressa, ainda o pegará nas proximidades do cemitério. Por este ato de fé e caridade, a família enlutada antecipa seus sinceros agradecimentos. Comunicamos o falecimento de Vanilda Teixeira”.  

Nota de Falecimento

Comunicamos com pesar o falecimento de Jair Silva Rodrigues, ocorrido ontem, dia 22 e convidamos parentes, amigos e pessoas caridosas para acompanharem seus restos mortais até o cemitério da Paz, saindo o féretro da capela mortuária, Nossa Senhora da Boa Morte, às 15h de amanhã, dia 23. Por este ato de fé e caridade, a família enlutada renova os mais sinceros agradecimentos. Informamos com pesar o falecimento de Jair Silva Rodrigues.

Após alguns segundos de silêncio o comunicador disse: “Para quem não conhecia o meu amigo Jair Silva Rodrigues, “Bilico”, saibam que ele era um homem de bem, de família, honesto, religioso, comunicativo, muito responsável, torcedor fanático pelo Botafogo de Futebol e Regatas do Rio de Janeiro, se orgulhava de ter visto jogar Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo e Jairzinho. Bilico, era devoto de São José Operário, casado com senhora Gertrudes, professora do primário e residia no bairro Alto da Fábrica, atrás da Basílica de São José Operário. Ele tinha três filhos, Ana Clara, a Clarinha, esposa do Juvenal funcionário do Banco Mercantil; Luiz Paulo funcionário do BEMGE, recentemente transferido para Belo Horizonte e de Rosa Maria, a Rosinha funcionária do Banco do Brasil em Juiz de Fora. Jair era aposentado do Banco Progresso. Vá com Deus Meu amigo!”.

Os detalhes ajudaram muitos ouvintes a conhecer o falecido “Bilico”. Recebemos Inúmeros telefonemas agradecendo essa colaboração.