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14 de abril de 2018 às 19h01

Novela é pior que cachaça de má procedência

A crônica de Ricardo Tollendal

Ricardo Tollendal

Vicia e dá um porre gosmento, visceral e enjoativo. Desde os tempos do rádio, a fórmula pouco mudou. Ficou um pouco menos melodramática, mas pudera: hoje já não se engolem dramalhões chorosos. Com um noticiário tão ágil e uma realidade tão amarga, narrativas remelentas não fazem o menor sentido.

 

O sentimentalismo, no entanto, perdura. Há jovens casadoiras e vilões cruéis. Essas caricaturas são o aspecto mais irreal da novelice. Ninguém nunca foi nem será tão frágil, tão canalha, tolo ou fedapê durante todo o tempo. Na vida real, não há personagens lineares. A mudança de idade e o cotidiano inviabilizam os estereótipos. Determinismo é uma visão pertinente à tragédia grega, quando a mobilidade social era inteiramente nula, e o livre arbítrio absolutamente impensável. Por isso, há muitos anos defini a novela como ficção piegas ou grosseira, na qual os personagens zurram como asnos quando não arrulham feito pombos.

 

Meu comparsa Henrique Diniz, em A Notícia, escrevia O novelo da novela, misturando o enredo de todos os horários e de todos os canais. Porque eles se equivalem. Está certo que, volta e meia, desponta o mérito de exibir uma burguesia atônita e emergentes deslumbrados com a futilidade. Mas os personagens permanecem aquilo que são. Embrutecidos, embasbacados, desinformados, ignorantes, gananciosos ou imbecis. Ninguém evolui. Ninguém cresce.

 

Uma vez mais, é certo que os regidos pela mídia sejam mantidos em santa babaquice ou na mais plena indigência mental. A era da uniformidade consumista estimula esse perfil. Mas não há um só que enxergue a inanidade do mundo das aparências e construa uma existência intensa e criativa?

 

No plano formal, a novela peca por roteiros óbvios e minudentes. A necessidade de se estender por um ano ou mais faz o relato se prender a cenas redundantes que até mesmo a dona de casa mais ralentada, enquanto administra a janta, admite serem fastidiosas. Além de não queimar etapas, os enquadramentos e movimentos de câmera são os mais rotineiros possíveis. O ritmo é sonolento, enquanto as ruas vivem um frenesi.

 

Posso não ser adepto dessa frenética forma de viver, mas reconheço que ela expressa o mundo contemporâneo. Enquanto isso, a novela expressa o quê?

Redação do Barbacena Online
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