Notícias


11 de fevereiro de 2018 às 07h34

Figuras populares de Barbacena

A crônica de Ricardo Tollendal

Ricardo Tollendal

Eu me lembro que, de meados dos 50 ao início dos 60, havia em Barbacena uma numerosa galeria de tipos populares. Alguns eram vítimas dos sabaquás que faziam chacota. Outros, por não dar trela ou pela força física, nunca eram molestados. Botina era um negro forte que vendia dobradinha. Sempre descalço e de calças arregaçadas, berrava numa esquina e se ouvia cem metros adiante. Telmo vendia caquis acomodados num balaio. Era alto, corpulento, grisalho e poeta. Declamava defronte à estátua de Bias Fortes. Ercília, mulher forte e decidida, falava alto o que lhe desse na veneta e fazia faxinas. Teve um filho – cuja paternidade era atribuída ao Telmo – e ela o transportava numa carrocinha acolchoada, puxada por cabritos. Izabelinha foi moça prendada. Tocava piano e falava francês. Musa dos alunos da EPCAR, ela os designava por ‘meus lindos passarinhos azuis’. Candim Lelê era temido. Toda tarde descia a Avenida Bias Fortes, empunhando uma foice e arrastando descomunal moita de capim. Tanto temor infundia que não tenho certeza se usava uma longa barba. ‘Seo’ Camilo, barbudo, envergava uma capa de xantungue tanto no inverno como no verão. Fosse dia chuvoso ou ensolarado. Quando a Caixa Econômica abria as portas, sacava cinco cruzeiros e, ao fim do expediente, tornava a depositá-los. A Grila catava papel nos caixotes de lixo. Estava sempre com o rosto coberto de ruge, sobrancelhas riscadas a lápis e batom na boca. Era digna de filme de Fellini. Madalena tinha pés de pato, daí o apelido de Pé-Espalhado. Trazia sempre nas mãos uma revista enrolada e reagia a quem a insultasse. Nicolau Sete-Cuecas tinha fama de tarado. Ostentava uma nariganga arroxeada, andava curvado e dizia impropérios intraduzíveis. Por isso, quando hoje não querem que se fale em terra de doido, ponho minhas barbas de molho.

 

 

ATÉ QUE UM DIA SE VOLTA A DAR DE CARA COM AFLIÇÕES SOCIAIS

 

Nunca imaginei que, em idade quase provecta, me tornaria mais uma vez capaz de contemplar fixamente o panorama urbano, que me sugere fabulações impossíveis de converter em matéria ficcional. Às vezes, deixo de almoçar para roer um sanduíche no terraço de onde se vislumbra a imensidão carioca, situada entre a Central do Brasil e o Pão de Açúcar. Fixo os olhos num sobrado, numa esquina que costumo visitar, e a imaginação desata a fazer suposições simultâneas de coisas fantasmagóricas. Jamais escreverei essas crônicas, essas novelas ou grande epopeias, envolvendo gente miúda que lamentavelmente não dispõe de meios para se expressar. A história de sua peleja para sobreviver numa sociedade hostil, a humilhação imposta por patrões arrogantes, o assédio de chefetes prepotentes e a discriminação odiosa, tudo é engolido à noite, num ônibus lotado que os devolve ao dormitório,  e silenciosamente será ruminado durante o sono num quarto abafado. Meu olhar foge da cloaca infecta que erguemos na superfície do planeta. Prefiro enxergar nuvens que, no outono, se parecem ao gênio da lâmpada exibido nos desenhos animados. Mas o poder dos gênios miraculosos está extinto ou nunca existiu. E o poder dos homens, quando não descamba na perversão, permanece uma inverificável quimera, substantivo mais brando que utopia. Enunciá-la seria um exagero, que acarreta o descrédito de todas as indignações.

Redação do Barbacena Online
contato@barbacenaonline.com.br | (32) 98835-4900