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14 de julho de 2017 às 22h39

Caderneta de Compras

A crônica de Francisco Santana

Francisco Santana
Caderneta de Compras

Supermercados? Shoppings? Eram coisas do futuro. Os termos usados na época, década de 50/60 eram “venda”, “vendinha” ou “armazém de secos e molhados”. Secos e molhados? Sim! Conjunto de .gêneros alimentares sólidos e líquidos que se vendem geralmente nas mercearias e em outras lojas de .varejo. Daí surgiu a caderneta onde as compras eram anotadas. Com a crise comercial ela voltou a ser muito utilizada. Na minha casa a usávamos ritualisticamente com frequência. Ritualisticamente? Suponhamos que faltou alimento. Uma lista era feita pelos meus pais, entregue aos filhos mais jovens que a levava à venda para efetivar as compras. Perdi as contas das inúmeras andanças que fiz entre a nossa casa e os comércios. Ainda bem que eram próximos. Às vezes eu decorava o conteúdo da lista e não precisava entregá-la aos comerciantes. Eu gostava de analisar tudo que via. Tinha venda que os alimentos eram colocados dentro de sacos e outros dentro de armações de madeiras. Não podemos nos esquecer das conchas que pegavam o arroz, feijão, fubá, milho e farinha para pesagem nas balanças da marca Filizola, sempre da cor vermelha. Ninguém fazia compras para o mês inteiro. A necessidade ditava se diária, semanal ou quinzenal.  

 

Alguns comerciantes anotavam as compras em duas cadernetas, uma ficava com ele e a outra com o comprador. No final do mês uma conferência era realizada. Nenhum comerciante gostava de ser lesado. A sinceridade entre vendedor e comprador ditava a transação. A credibilidade dependia do pagamento ou das argumentações.  

 

Nós comprávamos fiado em duas vendas e em dois açougues. Num deles a carne suína era considerada a melhor, especialmente costela, linguiça e o famoso chouriço. O seu proprietário era o Senhor Thomé Ayres Pinto. Olhando para ele não sabíamos se ele estava sorrindo ou se o seu sorriso era do formato do seu rosto. Homem de bom coração, honesto e compreensivo. Ele sempre foi contrário ao nosso uso da caderneta para compras. Como argumento dizia que o meu pai era gente de bem e exaltava a confiança recíproca. A caderneta saiu vitoriosa. Frente ao seu açougue tinha um armazém do seu filho, Senhor Augusto Ayres Pinto, muito bem organizado, limpo e cheiroso. Igual ao pai, relutou para não aceitar o uso da caderneta para compras. Motivo: o simples nome do meu pai, Sargento Santana era o bastante. Ambos conversavam muito sobre armas. A poucos metros dali havia outro armazém de propriedade do Sr. José Esteves, português decente, que a gente comprava fiado. Para ele eu fazia questão de entregar a lista de compras porque era difícil entender o seu linguajar. Uma vez entreguei a lista para sua filha. O balcão estava enfeitado com dezenas de rapaduras clarinhas e chamativas. Eu as devorei com os olhos. Pedi a ela que acrescentasse na lista uma. Como não estava anotada, ela foi consultar ao seu pai. Ele chegou sorridente, perguntou pelo meu pai, pegou uma rapadura e me disse: “Tome! É para você!”. O seu gesto brotou em mim sentimentos de amor, respeito e gratidão. Narrei esse fato em casa e meu pai foi certificar com ele a veracidade. O outro açougue onde comprávamos carne bovina ficava na Rua Sete, de propriedade do Sr. Antônio que sempre enviava um abraço para o meu pai, além de um atendimento excelente. Os elogios dos quatros comerciantes ao meu pai orgulhavam-me e moldaram o meu caráter.   

 

Os pagamentos mensais eram efetuados pelo meu pai. Eu não lembro ter feito isso. Dinheiro é coisa séria. Eu nunca o vi saldar o débito de uma só vez. Era um pouco aqui, outro ali sempre prometendo quitar o total no próximo mês. E quitava mesmo. O Sr. Tomé, esfregando as mãos sempre dizia: “Antes pingar do que secar”. Meu pai pedia sempre para trocarmos as cadernetas porque a que ele levava para negociar estavam surradas de tantos manuseios. Assim era feito.

 

Além das compras eu adorava ler nas casas comerciais as frases inteligentes, bem humoradas e atraentes expostas nas paredes. Algumas eu decorava e outras eu anotava num caderno pra relembrá-las e poder sorrir.  Vamos a algumas: “FIADO é assim... Eu vendo, você acha bom. Eu cobro, e você acha ruim”. “Só vendemos FIADO para maiores de 90 anos acompanhados dos avôs!!!”. “Promoção do dia: peça FIADO e ganhe um NÃO na hora”. “FIADO só amanhã”.  “Quem vende FIADO não tem alegria, perde o freguês e a mercadoria”. “FIADO só na filial. Favor anote o endereço: Rua Cara de Pau, l71 bairro Jardim Calote”. “Aqui tem cerveja. Se for FIADO, só veja”. “Para evitar transtorno e também decepção só vendo FIADO a corno, cabra safado e ladrão. Freguês apresente o seu cartão”.

 

(Fontes: Blog Anos Dourados Imagem & Fotos/Compras eram na caderneta – Guilherme Cardoso).